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HIV Medicine 2006

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Tradução:

Carolina Palma
Catarina Pinheiro
Daniela Lobão
Joana C. Silva
Helena Barroso
Inês Bártolo
Patrícia Carvalho
Paula Matoso
Sheila Rocha
Victor Bezerra

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Doenças Neuromusculares

Thorsten Rosenkranz e Christian Eggers

 

Polineuropatia e Polirradiculopatia

As neuropatias periféricas podem complicar todos os estádios da infecção VIH. Durante os estádios precoces as neuropatias periféricas são pouco comuns, mas testes por electrodiagnóstico revelam evidências subclínicas de envolvimento de nervos periféricos em cerca de 10 % dos casos. Nos estádios mais tardios, ocorrem neuropatias sintomáticas em cerca de 30-50 % dos doentes. Estudos neuropatológicos mostraram alterações patológicas com uma prevalência que se aproxima dos 100 % em doentes com SIDA.

As neuropatias podem ser classificadas como doenças primárias ou secundárias associadas ao VIH, causadas por substâncias neurotóxicas ou infecções oportunistas. Apesar das neuropatias relacionadas com o VIH estarem a diminuir desde a introdução da HAART, houve um aumento da prevalência de neuropatias tóxicas (Authier 2003). Podem-se distinguir diferentes tipos de neuropatias periféricas com base no estádio da doença por VIH, pelo curso clínico, sintomas maioritários e características electrofisiológicas e neuropatológicas.

 

Características clínicas

Polineuropatia  desmielinizante, inflamatória, aguda (PDIA), Síndroma Guillain-Barré (SGB)

A PDIA normalmente ocorre na seroconversão ou em estádios assintomáticos da infecção VIH. Por outro lado, parece estar raramenet associada ao síndrome de reconstituição imune  (Piliero et al. 2003). A apresentação clínica típica é de falta de reflexos, fraqueza ascendente simétrica e uma relativa poupança das fibras nervosas sensoriais. O envolvimento dos nervos cranianos e dos nervos cervicais e torácicos espinais leva a insuficiência respiratória, disartria e disfagia. O envolvimento dos nervos parasimpáticos e simpáticos pode causar arritmias cardíacas que podem provocar a morte e hipo ou hipertensão arterial severa.

O fluído cerebroespinal (FCE) mostra tipicamente uma concentração aumentada de proteína causada pela disfunção da barreira hemato-encefálica. Em contraste com os doentes VIH-negativos com PDIA, na maioria dos doentes VIH positivos encontra-se uma pleocitose moderada até a 50 leucócitos/µl FSE.

O estádio progressivo é seguido por alguns dias ou semanas de doença estável até a recuperação se iniciar. Se ocorrer dano axonal secundário, a recuperação pode demorar até 2 anos. Uma deficiência persistente, em diferentes graus, é desenvolvida em cerca de 30 %.


Tabela 1: Polineuropatias e polirradiculopatias na infecção HIV

Tipo

Infecção HIV

Dados clínicos

Achados

Polineuropatia primária associada ao HIV

Polineuropatia aguda, inflamatória, desmielinizante (Síndrome de Guillain-Barré, GBS)

Seroconversão assintomática sem ou com imunosupressão benigna

Fraqueza muscular simétrica > perda da sensibilidade, arreflexia

EEG com achados de desmielinização, proteínas do LCR elevadas e peocitose moderada do LCR (< 50 c/µl)

Polineuropatia crónica inflamatória desmielinizante(CIDP)

Começo assintomático de imunosupressão, raramente SIDA

Astenia distal e proximal > perda da sensibilidade, arreflexia

EEG com achados de desmielinização, proteínas elevadas no LCR e pleocitose moderada do LCR (< 50 c/µl)

Neuropatia vasculítica

Começo assintomático de imunosupressão, raramente SIDA

Frequente perda aguda assimétrica de função de um só nervo, raramente alterações sensitivas e motoras distais e simétricas

Elevação da , crioglobulinémia, co-infecção HCV; vasculite na biópsia do nervo mas também no músculo, rim e outros órgãos

Neuropatia difusa, síndrome de leucocitose infiltrativa (DILS)

Começo de imunosupressão

Fraqueza e perda da sensibilidade assimétrica, raramente alterações distais simétricas

Doença semelhante ao síndrome de Sjögren’s ; CD 8 cells > 1200/µl

Polineuropatia sensitiva simétrica distal (DSSP)

SIDA ou imunosupressão avançada

Perda da sensibilidade simétrica distal, parestesias e dor nos membros inferiores

EEG com achadosd axonais envolvendo predominantemente os nervos sensitivos dos membros inferiores

 

Polineuropatias secundárias

Neuropatia tóxica associada à medicação

Começo ou imunossupressão avançada

Alterações sensitivas distais simétricas, parestesias e dor na extermidade distal dos membros inferiores

Tratamento com DDI, DDC, D4T, vincristina, dapsona

Sindrome de fraqueza neuromuscular agudo

Começo ou imunossupressão avançada

Tetraparesia aguda progressiva

Acidose láctica durante tratamento com NRTI‘s, lesões axonais e miopatia adicional

Mononevrite multiplex na infecção  CMV ou linfoma nãoHodgkin

SIDA

Perda aguda de função de nervos isolados, assimétrica.

Infecção por CMV noutros órgãos, detecção de  DNA CMV no plasma; Linfoma não-Hodgkin

Poliradiculite na infecção pelo  CMV ou M. tuberculosis ou devido a linfoma meníngeo

SIDA

Paraparésia flácida, perda da sensibilidade, disfunção vesical

Infecção por CMV ou micobactérias noutros locais, detecção de micobactérias no LCR ou células malignas no LCR

 

Polineuropatia desmielinizante, inflamatória, crónica (PDIC)

Enquanto a PDIA é uma doença monofásica auto-limitante, o curso da PDIC é progressivo crónico ou recidivo-remissivo. Fraqueza e distúrbios sensoriais desenvolvem-se após vários meses. Em alguns casos, recidivas, remissões incompletas e períodos de doença estável alternam entre si.

Na PDIC, tal como na PDIA, o FCE é anormal com um elevado nível de proteínas. Uma pleocitose moderada é muitas vezes encontrada em vez da clássica acelularidade. Os mecanismos patológicos característicos da PDIA e da PDIC parecem ser desmielinização mediada pelo complemento e macrófagos. É desconhecida a razão pela qual ocorre um processo persistente crónico de auto-imunidade no PDIC.

A PDIC é uma complicação rara da seroconversão nos estádios iniciais da infecção antes da SIDA.

Neuropatia vasculítica

Vasculite necrosante com envolvimento dos nervos periféricos é uma causa rara de neuropatia na infecção VIH. A maioria dos doentes desenvolve uma mononeurite múltipla caracterizada por disfunção aguda e recidiva dos nervos periféricos individuais. O prognóstico da doença é determinado pelo envolvimento de outros órgãos como o coração, rins ou músculos no processo da vasculite. Um ataque do complexo imune associado com o vírus da hepatite C ou crioglobulinas parece ter um papel essencial no mecanismo patológico.

Síndroma de linfocitose infiltrativa difusa (SLID)

A SLID é uma causa rara da neuropatia simétrica distal muitas vezes dolorosa. Faz lembrar o síndroma de Sjögren, mas tem uma infiltração multivisceral caracterizada por hiperlinfocitose (contagens de células CD8 >1000/µl). O Síndroma Sicca com parotidomegalia, linfoadenopatias, esplenomegalia, pneumonite e disfunção renal pode ocorrer em associação com a neuropatia axonal (Gherardi 1998).

Polineuropatia sensorial simétrica distal (PSSD)

PSSD é a neuropatia mais comum em doentes VIH positivos e torna-se sintomática nos estádios mais tardios da infecção VIH quando as contagens de células são de 200 /µl ou inferiores. O curso clínico é dominado por sintomas sensoriais com progressão lenta como dormência, disestesia e parestesia dos pés e zona inferior das pernas (Tabela 2). Cerca de 30-50 % dos doentes queixam-se de dores lancinantes ou lacerantes com ardor. Envolvem principalmente os dedos e a planta dos pés e por vezes é difícil caminhar. As características clínicas incluem reflexos ausentes ou diminuídos no tornozelo, uma vibração elevada com início nos dedos e tornozelos e diminuição da sensibilidade à dor e temperatura, a propriopercepção é em geral normal. Fraqueza e atrofia intrínseca dos músculos do pé são moderadas e não são características da doença. Os dedos e as mãos raramente estão envolvidos.

Envolvimento da parte superior das pernas e tronco, fraqueza significativa dos músculos da perna ou diminuição da propriopercepção não são típicas da PSSD e devem levantar suspeita de outras desordens, por exemplo conjunção com uma mielopatia. Perda e disfunção de pequenas fibras nervosas simpáticas e parasimpáticas podem causar hipotensão postural, disfunção eréctil, gastroparésia e alterações da pele e unhas em muitos doentes com PSSD.

Tabela 2: Características clínicas da polineuropatia sensorial simétrica distal

Dormência, dor, disestesia e parestesia dos pés e parte inferior das pernas

Ausência ou diminuição dos reflexos dos tendões dos tornozelos

Diminuição ou ausência de sensibilidade à vibração dos dedos e tornozelos

Nenhuma ou pouca disfunção motora

Nenhum ou pouco envolvimentos das mãos e braços

Curso progressivo lento

Estudos electrodiagnósticos com características de danos nos nervos axonais

Disfunção autónoma: hipotensão ortostática, disfunção eréctil

 

Neuropatia tóxica relacionada com a medicação

Uma neuropatia periférica sensorial simétrica distal ocorre em cerca de 10-30 % dos doentes tratados com DDI, D4T ou DDC. Distingue-se da PSSD induzida pelo VIH no exame clínico ou em estudos electrodiagnósticos. A única diferença é a exposição a medicação antirretroviral com nucleósidos neurotóxicos. Brew e colaboradores (Brew 2003) verificaram um aumento no lactato no soro em mais de 90 % dos doentes com neuropatias relacionadas com o D4T.

A neuropatia aos nucleósidos desenvolve-se em média após 12-24 semanas de tratamento. Após descontinuação, pode haver uma fase temporária de agravamento da situação durante 2-4 semanas e as melhoras normalmente iniciam-se após 6-12 semanas. Em vários casos o restabelecimento não é completo. Nestes casos já existiriam previamente danos dos nervos periféricos devido à infecção VIH.

Distúrbios subclínicos da função nervosa periférica confirmados por evidências patológicas em estudos electrodiagnósticos elevam o risco de desenvolver neuropatias relacionadas com NRTI’s. No estudo Americano TORO-1, 11 % dos doentes tratados com T-20 (enfurvitide) desenvolveram neuropatias versus 5 % no grupo controlo (Lalezari 2003), mas o estudo Europeu TORO-2 não confirmou estes resultados (Lazzarin 2003).

Se os IP’s (indinavir, saquinavir, ritonavir e atazanavir) aumentam o risco de neuropatia é uma matéria em debate (Crabb 2004, Pettersen 2006)

 

Tabela 3: Fármacos neurotóxicos usados frequentemente no tratamento do VIH

NRTI’s: DDI, DDC, D4T

Antibiótico: dapsona, metronidazol, isoniazida

Citotóxicos: Vincristina

 

Síndroma da fraqueza neuromuscular aguda

Durante o curso de uma acidose láctica induzida pelos INTR’s pode ocorrer uma tetraparesia que pode por em risco a vida, fazendo lembrar a PDIA. Na maioria dos casos encontram-se danos no nervo periférico axonal, mas em alguns doentes foi também detectada desmielinização. Além disso, a biópsia muscular revelou miosite ou miopatia mitocondrial em alguns casos (Simpson 2004).

 

Tabela 4: Fases de diagnóstico

Procedimento

Achados

Condição

Exames básicos (recomendados para todos os casos)

História clínica

Fármacos

Doenças oportunistas


Alcoolismo

PNP relacionada com medicação tóxica

Neuropatia associada a infecção pelo CMV ou linfoma

PNP alcoólica

Exame neurológico

Tipo clínico de PNP (simétrica distal, mononevrite multiplex, etc.)

Sintomas não devidos a mielopatia ou miopatia

Electromiografia

Electroneurografia

Confirmação da neuropatia

Desmielinização

Alterações axonais

Sintomas não devidos a mielopatia ou miopatia

AIDP, CIDP

DSSP, Neuropatia Multiplex, DILS

Análises de sangue

 

HbA1c, glicose

Vit B12, B1, B6, Fe, ferritina


ANA, crioglobulinas, serologia HCV, imunocomplexos circulantes, ANCA

TPHA

CD8 cells > 1200/µl
lactato


CMV DNA (if CD4 cells < 100/µl)

Polineuropatia diabética

PNP devido a má nutrição ou má assimilação

Neuropatia vascular


Neurosífilis

Neuropatia associada a DILS

Neuropatia induzida pelos NRTI’s

Mononevrite multiplex devido a infecção pelo CMV

Testes adicionais (só necessarios em casos paticulares)

LCR

Proteínas totais elevadas

Pleocitose (granulócitos), CMV DNA

Células linfoma, EBV DNA

IgA elevada, bacilos AAR, DNA micobactériano

AIDP, CIDP

Polirradiculite devido a infecção CMV


Meningite linfomatosa


Polirradiculite tuberculosa

 

Testes autónomos (reacção simpatico da pele; variabilidade da frequência cardíaca)

Envolvimento dos nervos simpáticos e para-simpáticos

Neuropatia autónoma adicional

RNM (espinal medula lombar)

Compressão da cauda equina

Linfoma da medula espinalToxoplasmose medular

Biópsia de nervo e músculo

Vasculite necrozante

Infiltração peri-vascular com CD8 sem necrose

Neuropatia vascular

DILS-neuropatia associada

 

 

Polineuropatia e polirradiculopatia devido a outras doenças

Em doentes com doença VIH avançada, a mononeurite múltipla pode ser causada pela infecção CMV ou por linfoma não-Hodgkin. A polirradiculopatia aguda ou subaguda da cauda equina com paraparesia flácida progressiva rápida das pernas, a disfunção do intestino e distúrbios sensoriais ocorrem no curso das infecções oportunistas (CMV, M. tuberculosis) ou do linfoma meníngico não-Hodgkin. Outras causas importantes da polineuropatia são abuso de álcool, diabetes mellitus, malnutrição em doentes com doenças gastrointestinais longas, doenças neoplásicas e caquexia.

Diagnóstico

Um diagnóstico de neuropatia pode normalmente ser feito com base na história clínica e exame clínico. Estudos electrodiagnósticos podem ser realizados para confirmação e diferenciação de outras doenças como a mielopatia. A análise do fluído cerebrospinal pode ser necessária se houver suspeita de infecção com CMV ou sífilis, por exemplo. Biópsias do nervo sural e musculares podem ser necessárias em casos atípicos – por exemplo PSSD dolorosa com elevadas contagens de células CD4 e carga viral baixa e sem medicação neurotóxica ou outros factores de risco. Na Tabela 4 encontram-se algumas recomendações práticas para a prática clínica.

 

 Tratamento

Opções de tratamento existem apenas para algumas neuropatias ou polirradiculopatias raras. Imunoglobulinas intravenosas e plasmoferése mostraram-se efectivas na terapûtica da PDIA. Os corticosteróides são também efectivos na PDIC. Nos ensaios clínicos do tratamento da PDIC, não se verificaram diferenças na eficácia das imunoglobulinas, plasmoferése ou corticosteróides. No entanto, um doente individual pode responder apenas a um dos três tratamentos. Em doentes que apenas respondem a doses muito elevadas de corticosteróides, outros agentes imunossupressivos como a azotrioprina, baixas doses semanais metotrexato ou ciclosporinas podem substituir a terapêutica esteróide de longo termo. Vimos doentes com PDIC que estavam em remissão parcial após terapêutica esteróide temporária e que permaneceram estáveis durante anos apenas com a TARV.

Em neuropatias relacionadas com a medicação o fármaco ofensivo deve ser interrompido. No entanto, a substituição do DDI ou D4T pode ser difícil em alguns casos de resistência múltipla da infecção VIH aos fármacos. Nesta situação, a redução na qualidade de vida pelos sintomas da neuropatia deve ser ponderada contra o risco de deterioração dos parâmetros imunológicos e virais. Um pequeno estudo com  2 x 3500 mg L-acetil-carnitina resultou na regeneração nervosa periférica, demonstrado em biópsias da pele, e um melhoramento dos sintomas neuropáticos induzidos pelos INRT neurotóxicos (Hart 2004).

Dois pequenos estudos confirmaram a eficácia da L-acetil-carnitina na redução da dor em doentes com neuropatia neurotóxica (Herzmann 2005, Osio 2006), mas náo há estudos randomizados.

Um tratamento específico para a PSSD não existe. A TARV pode melhorar a função dos nervos sensoriais em poucos casos, e por isso iniciar a TARV ou optimizar uma terapêutica já existente deve ser considerado em novos diagnósticos de PSSD. Na maioria dos casos os sintomas neuropáticos mantêm-se.

Tratamento sintomático é dirigido para sintomas irritativos como dor e parestesia. Não é efectivo contra défices na função nervosa incluindo perda sensorial ou fraqueza.


 

Tabela 5: Tratamento causal das poli-neuropatias e poli-radiculopatias

Condição

Tratamento

AIDP

Imunoglobulina intravenosa0.4 g/kg/dia durante 5 dias

ou: plasmaferese (5 x em 7-10 dias)

CIDP

Imunoglobulina intravenosa0.4 g/kg/dia durante 5 dias

ou: plasmaferese (5 x em 7-10 dias)

ou: prednisona 1-1,5 mg/kg/diadurante 3-4 semanas com subsequente redução durante 12–16 semanas

Neuropatia vascular

Prednisona 1-1,5 mg/kg/dia durante 3-4 semanascom subsequente redução durante 12–16 semanas

Neuropatia por  DILS

Início ou reforço da TARV mais prednisona 1-1,5 mg/kg/dia durante 3-4 semans com subsequente redução durante12–16 semanas

Polineuropatia sensorial distal simétrica

Não há tratamento causal, a TARV pode melhorar a função nervosa para tratamento sintomático. Ver tabela  6

Neuropatia tóxica relacionada com medicação

Retirar as substâncias tóxicas, se possível.

Mononevrite multiplex ou poliradiculite devida a infecção pelo CMV

Foscarnet intravenoso2 x 90 mg/kg /dia maisganciclovir intravenoso2 x 5 mg/kg/dia.

 

Meningite linfomatosa

Começar ou reforçar TARV mais metotrexato intratecal(shunt intraventricular ou punção lombar) 12-15 mg 2 x/semana até que o que o LCR esteja livre de células malignas e depois  1 x/semana durante  4 semanas e depois 1 x/mês mais 15 mg de folinato oral após cada injecção mais tratamento sistèmico do linfoma(ver capítulo “Linfomas malignos””)

Poliradiculopatia devida a infecção pelo  M. tuberculosis

Tratar a tuberculose (ver capítulo IO’s)

 

Os agentes listados na tabela 6 são recomendados porque provaram ser úteis na prática diária e porque interferem apenas ligeiramente e de uma forma previsível com a TARV. Um estudo controlado mostrou que a lamotrigina era efectiva na redução dos sintomas de neuropatia neurotóxica (Simpson 2003). O fármaco é bem tolerado se se aderir ao regime crescente lento de doses baixas e se se reduzir a dose de ocorrência de reacções cutâneas. Num pequeno estudo, a gabapentina mostrou ser efectiva na redução da dor induzida pela PSSD (Hahn 2004). As vantagens desta substância são a boa tolerabilidade e não haver interferência com a TARV.

Um estudo randomizado controlado não encontrou benefício terapêutico da  lidocaína 5 % em gel para o tratamento da dor neuropática associada ao HIV(Estanislao 2004).

Os antidepressivos tetracíclicos amitriptilina e nortriptilina têm efeitos colaterais anticolinérgicos. A dose necessária para reduzir a dor neuropática é do mesmo nível da dose para tratar a depressão e muitos doentes não toleram estas doses. No entanto, baixas doses provaram ser ineficazes na PSSD. A nortriptilina não tem efeitos colaterais sedativos. Usamos esta substância com grande sucesso. O anti-convulsivante carbamazepina é muito usado no tratamento da dor neuropática. No entanto, induz algumas enzimas do sistema CYP450 que interferem significativamente com a TAR. Assim a sua utilização na medicina do VIH é muito limitada. A pregabalina, um anti-convulsivante semelhante à gabapentina, foi aprovada recentemente para o tratamento da dor neuropática. Efectivamente alivia as dores em doentes com neuropatia periférica diabética dolorosa. Tal como a gabapentina, não interfere com a TAR e é bem tolerada. Estamos a tratar com sucesso um número cada vez maior de doentes com PSSD e neuropatia neurotóxica, com esta nova substância.

 


 

Tabela 6: Tratamento sintomático da dor neuropática

 

Tratamento

Efeitos secundários

Passo 1:

Fisioterapia, medidas de suporte (sapatos largos, etc.),

L-acetil-carnitine 2 x 2–4 g

 

Raramente alergia

 

Raramente diarreia ligeira

Passo 2:

Uso temporário de  3-4 x 1000 mg paracetamol ou 2-3 x 50 mg diclofenac ou4 x 40 gotas de  novaminsulfona durante 10-14 dias

Náusea, vómitos, alergia (rara)

Passo 3:

Gabapentina 300 mg à noite em dose crescente de  300 mg/dia de 3-3 dias até um máximo de  3x1200 mg
ou

Pregabalina 2x75 mg durante 1 semana, em dose crescente até 2x150 na  2nd semana, e possivelmente até  2x300 mg
ou

Lamotrigina 25 mg à noite em dose crescente até  25 mg cada 5 dias até  300 mg

ou
Amitriptilina 25 mg à noite em dose crescente de  10-25 mg cada 2-3 dias até 3 x 50 mg
ou

 

Nortriptilina 25 mg de manhã em dose crescente de  25 mg cada 2-3 dias até 2-3 x 50 mg

Sedação, náusea, vertigens, raramente pancreatite



Náusea, vómito, diarreia, rash alérgico



Alergia, sedação, cafaleias, náuseasSedação, hipotensão ortostática, obstipação, vertigens, boca seca, disrritmia, retenção urinária, glaucoma

 

Hipotensão ortostática, obstipação, vertigens, boca seca, disrritmia, retenção urinária, glaucoma

Passo 4:

Flupirtina 3 x 100, dose crescente até 3 x 600 mg

ou

morfina retard 2 x 10 mg dose crescente até 2 x 200 mg

Sedação, obstipação, náuseas

 

 

Sedação, obstipação, náuseas

 

Prática geral

 

Proceder como no passo 1 se os sintomas persistirem.

Os fármacos dos passos 3 devem ser combinados (com anti-convulsivantes e um antidepressivo), os dos passos 3 e 4 podem ser combinados (com a flupirtina e um anti-convulsivante).

Se é necessário uma alívio rápido dos sintomas o tratamento deve ser começado com os fármacos do passo 4 e doses mais baixas do 3 devem ser iniciadas com doses crescentes lentas.

Quanto mais lento for o aumento das doses maior a possibilidade de se alcançar uma dose eficaz.

Opióides potentes podem ser usados para manutenção de dor severa e moderada Potent se um escalamento de baixas doses de um anti-depressivo ou anti-convulsões não for possível e se se desejar um efeito analgésico imediato (Sindrup 1999). Mesmo em casos de substituição ou não de abuso de drogas, os opióides devem ser usados (Breitbart 1997). Por vezes, a dose de metadona pode ser apenas moderadamente aumentada para um efeito analgésico suficiente.

Miopatia

As miopatias ocorrem em 1-2 % de todos os doentes com VIH. Podem aparecer em qualquer estadio da doença. A tabela 7 dá uma sinopse dos mais importantes tipos de miopatia na infecção pelo VIH.

A polimiosite, mediada pelas células T citotóxicas é a miopatia mais frequentemente associada ao VIH. A miopatia induzida pelo AZT ocorre muito pouco frequentemente com as dosagens de AZT usadas actualmente. Algumas substâncias usadas com frequência no VIH (DDI, co-trimoxazole, pentamidina, sulfadiazina, hipolipemiantes) podem raramente causar uma rabdomiólise aguda com tetraparésia e elevação muito marcada dos níveis séricos de CPK. Os IP’s aumentam a concentração das estatinas e também o risco de miopatias e rabdomiólise induzidas pelas estatinas (Hare 2002).

Uma elevação da actividade do CK observa-se com frequência em doentes a fazer TDF especialmente nos que estão co-infectados com HBV- ou HCV. Isto é devido ao tipo 2 da macro-enzima creatinakinase (Macro CK) e não significa doença muscular ou isquémica. A acumulação desta iso-enzima hepática parece ser resultado uma insuficiente capacidade de clearance da Macro CK2 mediada pelo  TDF (Schmid 2005).

Aspectos clínicos

A miopatia da infecção pelo VIH apresenta-se em geral como uma mialgia proximal induzida pelo esforço seguida de uma lenta, progressiva e simétrica hipotonia e atrofia dos músculos proximais. Os músculos das pernas são frequentemente afectados mas os músculos distais, os músculos do tronco, pescoço, face e garganta também podem ser afectados.

Diagnóstico

Mialgias, fadiga e elevação do CPK são encontrados com frequência na infecção pelo VIH. MAS estes sintomas e sinais inespecíficos não garantem o diagnóstico de miopatia. O diagnóstico de provável miopatia requer a hipotonia, atrofia muscular ou alterações miopáticas demonstradas por electromiografia. A biópsia muscular conforma o diagnóstico e pode dar alguns dados adicionais na classificação e patogénese da doença muscular.

Tabela 7: Miopatias na infecção pelo VIH

Associada ao VIH

Secundária

Polimiosite

Miopatia ao AZT

Miopatia nemalina (Corpo vermelho)

Vasculite miopática

Miopatia vacuolar

Infiltração muscular linfomatosa

Corpos de inclusão de miosite

Miosite infecciosa

 

Tratamento

A mialgia moderada responde ao tratamento com anti-inflamatórios não esteróides.

A prednisolona (100 mg/dia durante 3-4 semanas) ou imunoglobulina intravenosa (0,4 g/kg durante 5 dias) são eficazes no tratamento da polimiosite (Espinoza 1991, Viard 1992).

O tratamento da miopatia ao AZT é a paragem do fármaco. A mialgia cura dentro de 1 a 2 semanas. Se os sintomas persistem além de 4 a 6 semanas pode ser eficaz usar-se a prednisolona com acima foi descrito.

 

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