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HIV Medicine 2006

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Tradução:

Carolina Palma
Catarina Pinheiro
Daniela Lobão
Joana C. Silva
Helena Barroso
Inês Bártolo
Patrícia Carvalho
Paula Matoso
Sheila Rocha
Victor Bezerra

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Criptosporidiose

A criptosporidiose é uma parasitose intestinal com transmissão fecal-oral. É causada principalmente pelo protozoário Cryptosporidium parvum, (existem dois genotipos sendo o 1 conhecido agora como C. hominis) e pode afectar tanto hospedeiros imunocompetentes como imunocomprometidos (revisão muito boa: Chen 2002). Descritos pela primeira vez em 1976, os criptosporídios estão entre as causas mais frequentes de diarreia em todo o mundo. Fontes de infecção importantes deste parasita intracelular incluem animais, água e alimentos contaminados. O período de incubação dura aproximadamente 10 dias. Enquanto a diarreia se resolve em poucos dias na maioria dos hospedeiros saudáveis ou em doentes VIH com contagens de CD4 superiores a 200 células/µl, a criptosporidiose é muitas vezes crónica em doentes com SIDA. A diarreia pode provocar a morte devido à perda de água e electrólitos, particularmente em doentes severamente imunocomprometidos (abaixo 50 células T CD4/µl) (Colford 1996). Só a criptosporidiose crónica é definidora de SIDA, a aguda não.

Sinais e sintomas

A típica diarreia aquosa pode ser tão severa que leva à morte como resultado de perda de electrólitos e desidratação. São comuns vinte movimentos intestinais por dia. A vontade constante de defecar é habitual, e ocorrem frequentemente náuseas e vómitos. No entanto, os sintomas são altamente variáveis. Febre não é frequente. Os tubos biliares podem ocasionalmente ser afectados, com a elevação das enzimas biliares. Também é possível pancretite.

Diagnóstico

Quando se enviam amostras de fezes, é importante informar especificamente o laboratório da suspeita clínica. Pois os criptosporídios são muitas vezes ignorados. Se o laboratório tiver experiência e receber a informação correcta, é normalmente necessária apenas uma mostra de fezes para a detecção. Anticorpos ou outro teste de diagnóstico pelo contrário não são úteis. O diagnóstico diferencial deve incluir todos os patogéneos que causam diarreia.


Tratamento

Não existe tratamento específico até à data. A diarreia é auto-limitante com um bom sistema imunitário; por isso, um sistema imunitário fraco deve sempre ser melhorado com HAART – e isto leva muitas vezes à resolução (Carr 1998, Miao 2000). Para assegurar a absorção dos fármacos anti-retrovirais, é aconselhável tratamento sintomático generoso com loperamida e/ou tintura de ópio (controlar a dosagem para as doses máximas!). Se isto não tiver sucesso, deve ser tentado o tratamento com outros anti-diarreicos, talvez mesmo a sandostatina. Hidratação suficiente é importante – isto pode requer infusões.

Temos visto bons resultados em casos individuais com o agente anti-helmintas  nitazoxanide, para o qual foi mostrada eficácia num pequeno estudo aleatório e que pode ser o primeiro fármaco com eficácia real para o tratamento de criptosporídios (Rossignol 2001). Num estudo mexicano cerca de dois terços dos doentes responderam ao tratamento (Rossignol 1998). No entanto, um estudo em crianças africanas mostrou apenas efeito nas crianças VIH negativas e não nas VIH-positivas (Amadi 2002). Os dados disponíveis não são suficientes para a FDA e só o nitazoxanide foi licenciado apenas nos EUA para crianças não imuno-suprimidas com idade inferior a 11 anos. Não houve aprovação para os doentes com SIDA, nem nos EUA nem na Alemanha, e parece pouco provável que isso vá acontecer num futuro próximo. Como resultado há muitas vezes problemas com os seguros de saúde. No entanto, é possível obter nitazoxanide através de um extenso programa de acesso, contactando o fabricante, Romark, directamente: http://romark.com. Num futuro próximo uma alternativa, a rifaximina (NormixÔ 400mg) poderá estar disponível. É uma novo antibiótico não absorvível que foi licenciado nos EUA e nalguns países europeus como anti-diarreico. Os primeiros dados disponíveis são muito promissores (Kokkoutou 2005).

Se a reconstituição imune for conseguida e o seguro se recusar a pagar, as opções tornam-se limitadas: paromomicina, um antibiótico aminoglicosídeo não absorvido, está disponível em pó ou em comprimidos, e tem sido utilizado por muitos clínicos, desde que um pequeno estudo não controlado mostrou um efeito favorável na diarreia (White 2001). No entanto, no único estudo aleatório realizado até à data não houve qualquer vantagem relativa ao placebo (Hewitt 2000). É possível um efeito em combinação com a azitromicina (Smith 1998).

 

 

Tratamento/profilaxia da criptosporidiose (doses diárias)

Terapêutica aguda

 

 

Sintomática

Loperamida +

 


tintura de ópio

Loperamida 1 cáps de 2 mg 2–6 x/dia ou

loperamida solução 10 ml (10 ml = 2 mg)
2–6 x/dia e/ou

Tintura de ópio 1 % = 5–15 gotas/dia

Sintomática

Octreotide

Solução de Sandostatina  1 amp de 50 µg s.c. 2x/dia ou 3x/dia (aumentar a dose lentamente)

Curativa

Nitazoxanide

Nitazoxanide1 compde 500 mg 2x/dia

Profilaxia

 

Profilaxia à exposição: não beber água da torneira

 

Profilaxia

Não há profilaxia aceite globalmente, apesar de análises retrospectivas reportarem um efeito protector da rifabutina e claritromicina (Holmberg 1998). Na nossa opinião, é mais importante que os doentes, pelo menos em países com problemas de higiene, não bebam água se ser engarrafada. Deve ser evitado o contacto com fezes humanas e de animais. Verificamos que os indivíduos ficam doentes principalmente durante os meses de Verão, muitas vezes depois de nadarem em rios. Os criptosporídios são resistentes à maioria dos desinfectantes. No hospital, no entanto, as medidas de higiene usuais (luvas!) são adequadas. Os doentes não necessitam de ser isolados, mas não devem ser colocados no mesmo quarto de doentes severamente imunocomprometidos.


Bibliografia

1.      Amadi B, Mwiya M, Musuku J, et al. Effect of nitazoxanide on morbidity and mortality in Zambian children with cryptosporidiosis: a randomised controlled trial. Lancet 2002, 360:1375-1380. http://amedeo.com/lit.php?id=12423984

2.      Carr A, Marriott D, Field A, Vasak E, Cooper DA. Treatment of HIV-1 associated microsporidiosis and cryptosporidiosis with combination antiretroviral therapy. Lancet 1998, 351:256-61. http://amedeo.com/lit.php?id=9457096

3.      Chen XM, Keithly JS, Paya CV, LaRusso NF. Cryptosporidiosis. N Engl J Med 2002, 346: 1723-31.

4.      Colford JM Jr, Tager IB, Hirozawa AM, et al. Cryptosporidiosis among patients infected with HIV. Factors related to symptomatic infection and survival. Am J Epidemiol 1996, 144:807-16. http://amedeo.com/lit.php?id=8890659

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6.      Hewitt RG, Yiannoutsos CT, Higgs ES, et al. Paromomycin: No more effective than placebo for treatment of cryptosporidiosis in patients with advanced HIV infection. Clin Inf Dis 2000, 31:1084-92. http://amedeo.com/lit.php?id=11049793

7.      Holmberg SD, Moorman AC, Von Bargen JC, et al. Possible effectiveness of clarithromycin and rifabutin for cryptosporidiosis chemoprophylaxis in HIV disease. JAMA 1998, 279:384-6. http://amedeo.com/lit.php?id=9459473

8.      Miao YM, Awad-El-Kariem FM, Franzen C, et al. Eradication of cryptosporidia and microsporidia following successful antiretroviral therapy. J Acquir Immune Defic Syndr 2000, 25: 124-9. http://amedeo.com/lit.php?id=11103042

9.      Rossignol JF, Ayoub A, Ayers MS. Treatment of diarrhea caused by Cryptosporidium parvum: a prospective randomized, double-blind, placebo-controlled study of Nitazoxanide. J Infect Dis 2001, 184:103-6. http://amedeo.com/lit.php?id=11398117

10.  Smith NH, Cron S, Valdez LM, Chappell CL, White AC Jr. Combination drug therapy for cryptosporidiosis in AIDS. J Infect Dis 1998, 178:900-3. http://amedeo.com/lit.php?id=9728569

11.  White AC, Cron SG, Chappell CL. Paromomycin in cryptosporidiosis. Clin Inf Dis 2001, 32:1516-7.

 

 
     
 

     

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